O puzzle da vida

Na vida há poucas coisas garantidas e por isso quando conseguimos encontrar uma delas, vale a pena não a deixarmos fugir das mãos, pois é uma verdadeira “riqueza”. Um dos achados é a velha regra da vida humana, em que tudo o que tem um início terá também um fim. O facto do início se associar à alegria e positividade é quase tão evidente como o fim nos fazer sentir o oposto: tristeza e negatividade. Tal acontece porque o ser humano, para se sentir bem, precisa de segurança, que nos dias que correm se traduz na sensação de poder ter algum controlo sobre os acontecimentos. Se um dia sentirmos este poder é sinal que estamos a viver numa ilusão, pois além da impossibilidade de prever os humores da vida, não conseguimos evitar o inevitável: os ciclos da existência humana irão executar as suas sentenças.

 
Anna Kosmider Leal

E que tal em vez de nos focarmos no início e no fim, aprofundarmos o que acontece pelo meio? Isto confirmará que os ciclos fazem parte da vida, e são eles que dão a forma à nossa existência.

 
 

O primeiro deles é a infância. É curioso como uma fase, que conforme Tracy Hogg (enfermeira e autora de vários livros de parentalidade) passa num “pestanejar”, dá fundamento a tudo que acontecerá a seguir e terá os seus ecos em todos os aspetos do nosso futuro. Em criança, o nosso cérebro é como um solo fértil, em que o que plantarmos depois colheremos. Tudo parece alcançável como nos filmes de Hollywood em que existem bons e maus, mas quem sempre vence é o bom, ao menos assim costuma ser. Depois chega a adolescência…. Aí as coisas complicam, a nossa paciência começa a ganhar contornos e entende que só há dois caminhos, o da vitória ou da derrota, e os problemas parecem becos sem saída: “Se ele não gostar de mim, não vou gostar de mais ninguém na vida! Se não tiver uma boa nota, não vou conseguir entrar na Faculdade! Se não comprar esta roupa, na festa ninguém vai reparar em mim!”.

Depois de uma série de vitórias e derrotas segue-se a fase adulta, a fase na qual estaremos inseridos até ao fim da vida. A passagem para os “enta” é uma ameaça para muitos, talvez porque a simples matemática mostra que o nosso percurso estará a meio do caminho. Mas os números não revelam a parte mais enriquecedora, pois ao contrário do que nos sussurra ao ouvido a nossa teimosa subconsciência, pouco a pouco a vida vai nos revelando as suas cartas. Embora os nossos olhos possam precisar de óculos, vamos conseguir ver muito melhor o que realmente importa. Vamos deixar de nos preocupar tanto com a nossa aparência física, vamos ficar a saber quem são os nossos verdadeiros amigos, conheceremos melhor a nos próprios, e vamos conseguir gerir o nosso tempo de forma mais consciente e adequada. Finalmente perceberemos que acumular anos é como fazer um puzzle. Conseguir completá-lo é um privilégio, privado a muitos.

 
 

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