Direitos Humanos em dia de bola

O Campeonato Mundial de Futebol de 2022 nasceu como parece fadado a terminar – manchado pela polémica. Desde do momento da escolha do Qatar como país anfitrião, no longínquo ano de 2010, que os argumentos a favor de realizar um Mundial no Médio Oriente por razões de aproximação da modalidade e do mundo ocidental a uma região tão estigmatizada, caíram por terra.

 
Afonso silva


Doze anos depois confirma-se o quadro mais negativo: uma escolha do país anfitrião envolvida em sólidas suspeitas de corrupção; numa realidade altamente adversa para a prática desportiva, que deslocou a competição para uma calendarização absurda;
uma preparação que significou gastos na ordem dos 200 mil milhões de dólares, valores oriundos da exploração de combustíveis fósseis num país altamente desigual economicamente; uma tragédia humanitária de proporções chocantes, traduzida em mais de 6500 trabalhadores mortos e outros 100.000 altamente explorados na construção dos estádios da competição e um branqueamento e aceitação tácita dos múltiplos atropelos aos direitos humanos sentidos no país – na criminalização das relações homoafetivas, na estrutura social profundamente patriarcal e misógina e no ultraconservadorismo patente.

 
 


Em suma, o Mundial de 2022 do Qatar é uma catástrofe a todos os níveis, mas principalmente, uma catástrofe humanitária. Implica a transformação de uma ocasião festiva para todos os amantes da modalidade num evento mórbido e faz-nos refletir, consequentemente, nas contradições da nossa sociedade – principalmente, na “financeirização da humanidade” e na relativização do conceito de “direitos humanos”.


Com “financeirização da humanidade” refiro-me à tentação macabra do sistema de produção capitalista olhar para todo e qualquer aspeto mundano da vivência humana como um objeto de negócio, com vista ao lucro e à acumulação de mais-valia. Não se trata de um fenómeno inédito ou recente (por muito que se vá exacerbando no capitalismo neoliberal tardio) – é a própria natureza do sistema a funcionar normalmente, só se surpreendendo os seus devotos mais distraídos. Se tudo ao nosso redor é passível de ser mercantilizado, porque não o seria o futebol, um desporto criado, na sua forma contemporânea, nos bairros operários de Inglaterra, que pela sua
natureza e competitividade se tornou hegemónico em poucas décadas? A raiz popular do futebol morreu, vive a sua indústria e a comercialização das paixões que a modalidade gera, alimentando aberrações como o Mundial de 2022.

 
 


Estas dinâmicas ajudam a explicar o próprio sistema em que estamos inseridos. O seu objetivo não é um ideal de bem comum, é a defesa dos interesses de uma elite – se o interesse das massas colidir com a sua busca por lucro e mais-valia, esta elite acionará
todos os seus meios para o moldar ou travar. Isto aplica-se à escolha do Qatar como país anfitrião de uma competição desportiva, mas poderia aplicar-se à crise climática ou à desigualdade económica crescente, principalmente no Sul Global – as catástrofes
só merecem ser travadas quando atacam a propriedade da elite.

Como tal, somos coletivamente convidados a colocar de lado as nossas preocupações quando estas colidem com a própria natureza do sistema, como exemplificou o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa ao desvalorizar as questões de Direitos Humanos envolvendo o Mundial. “O Qatar não respeita os direitos humanos.
Toda a construção dos estádios e tal…, mas enfim, esqueçamos isto. É criticável, mas concentremo-nos na equipa” disse o “Presidente dos afetos” em mais uma demonstração de empatia e com mais uma declaração ao nível da digníssima relativização dos abusos sexuais de menores no seio da Igreja portuguesa.

 


É acima de tudo, ilustrativa, a forma como o Presidente coloca a questão humanitária – os direitos humanos são para respeitar, mas apenas se isso não afetar o meu interesse pessoal (no caso, como mero adepto). Somos capazes de abraçar a caridade cristã e fazer cedências, mas não as suficientes para resolver os problemas estruturais da nossa economia e sociedade.


Revela também bastante sobre como são concetualizados os “direitos humanos” na nossa comunidade no sistema que a rege. O seu surgimento enquanto expressão normativa, fruto da reflexão iluminista e do pulsar revolucionário liberal do século XVIII, acontece precisamente sob um manto de subjetividade – à data, importava acima de tudo garantir direitos a uma classe privilegiada economicamente e socialmente (a dita classe burguesa), mas alheada dos palcos decisórios pela aristocracia do Antigo Regime. Uma classe patriarcal, esclavagista, colonialista, protagonista de uma nova roupagem para velhos problemas de opressão estrutural e
sistémica.

 


Muitos avanços foram conquistados nesta matéria pela via da luta reivindicativa – hoje, conseguimos alargar minimamente o escopo da figura dos direitos humanos a mulheres e pessoas racializadas, a muito custo destas e destes. Mas o caráter subjetivo permanece na interpretação e evocação que fazemos dos direitos humanos.
Ainda somos impelidos a sentir coletivamente mais o pesar pelas tragédias humanitárias ocorridas em solo europeu ou norte americano do que aquelas vividas diariamente no Médio Oriente, em África, na Ásia, na América Latina. Ainda sentimos que a perda de uma vida humana num boulevard parisiense traz, aos olhos da visão elitizada e ocidental dos direitos humanos, uma carga de tragédia que a morte de milhares de trabalhadores nepaleses e bengalis em obras de construção qataris não possui. Ainda selecionamos os conflitos armados com que nos revoltamos e os que ignoramos coletivamente, mediante a longitude e a latitude geográficas e a proveniência do material bélico.


Os direitos humanos são uma manifestação de progresso e de reconhecimento dos patamares mais elementares da vivência e bem-estar. Porém, a realidade concreta da sua mais comum materialização, torna-os uma legitimação da desigualdade entre o Norte e o Sul Global e até no seio das nossas sociedades, mediante a classe social, o gênero ou a cor da pele.

Concluindo, a nossa tardia revolta à tragédia associada ao Mundial do Qatar apenas serve como reflexão sobre os valores que nos suportam (e a facilidade com que os mercantilizamos). Cada um de nós tem a oportunidade de analisar a natureza do sistema que apregoamos, em todos os passos desta trágica cronologia – da escolha do país anfitrião, das milhares de mortes “silenciosas” durante estes 12 anos, da relativização que agora escolhemos adotar, após ignorarmos o problema ao longo deste tempo.


Aprenderemos algo com esta sangrenta lição? Sabemos já que a História, infelizmente, se repete, “primeiro como tragédia, depois como farsa”.

 

Texto: Afonso Silva

Artigo publicado em parceria com a Associação de Debates Académicos da Universidade do Minho

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