O ecossistema do ativismo

Na última semana as notícias e os meios de comunicação têm sido pautados pelas greves estudantis e pela mobilização dos estudantes em prol do combate as alterações climáticas. Porém, a que custo agora nós, estudantes, temos tempo de antena? Violência policial, invasão da Ordem dos Contabilistas e ocupação das escolas e das faculdades.

 


Estas greves são regidas pelo motor dos movimentos sociais. Estes são uma simbiose de valores/crenças, mudança e igualdade social. Podemos caracterizar os movimentos sociais como uma coletividade que age com alguma continuidade para promover ou resistir a uma
mudança na sociedade ou organização da qual faz parte.

 
 


Maio de 68 é a essência mais visceral de tal. No dia 2 de maio de 1968, estudantes franceses da Universidade de Nanterre fizeram um protesto contra a divisão dos dormitórios entre homens e mulheres. Contudo, estes protestos visavam abalar não só com o pudor sexual
sentido, mas com todas as esferas conservadoras com que o mundo se regia. O mundo começava a ser influenciado pelos gritos de brutalidade vindos da Guerra do Vietnam, os ventos do socialismo, as proclamações pelo sexo livre, os desejos de liberdade e o assassinato de Martin Luther King Jr, e tal foi espelhado nas ruas de Paris pelos jovens protestantes.


Concomitantemente, o final da década de 60 foi marcado pela emergência da sociedade do consumo na Europa onde o proletariado era excluído desta. Assim, estes protestos ganharam uma nova força. Os trabalhadores viram nos jovens a liberdade da reivindicação e aderiram às manifestações exigindo melhores salários e condições de trabalho.1968 foi então “o ano que não terminou” e Maio de 68 caracteriza-se como o marco cultural contemporâneo que floriu em força as greves gerais e ocupações estudantis, tornando-se um ícone de uma época onde a renovação dos valores veio acompanhada pela proeminente força de uma cultura jovem.

 
 


Todavia, o século mudou e a política desgastou-se.


Atualmente, no século 21 a perceção comum sobre o questionamento do status quo, as manifestações e a desobediência civil mudou radicalmente. Talvez por causa do neoconservadorismo que repudia as manifestações menores e resiste a mudanças nas esferas
política, social, econômica, cultural, entre outros. Certamente por causa do neoliberalismo efetivo por todo o globo que nos leva à individualização e à incapacidade de concebermos movimentos de massas.

 


A verdade é que manifestações estudantis em prol de um planeta limpo, sem emissões de gases nocivos altamente poluentes, produzidos pelas grandes empresas, tem gerado uma aversão irracional nas gerações mais velhas, mas não tão velhas assim – as gerações que
nasceram justamente no epicentro da mudança. Alguns designam a nossa luta ambiental como um desvario ou até um luxo, demasiados intitulam a nossa geração como aquela que “reclama por tudo e por nada”. É um paradoxo pensarmos que, de uma geração conservadora, onde nasceram líderes revolucionários que lutaram por seus ideais, com atitudes e dialética, a sua geração sequente seja uma que condene a mudança dando mãos ao conservadorismo.


O nosso longínquo ADN progressista e insurgente permanece e a nossa agenda só aumenta. Continuamos a quer direitos laborais, direito à educação, à saúde, ao pão.
Postulamos a liberdade sexual e a leviandade de amarmos quem quisermos. Exigimos a paz e as condições básicas de vida para toda a gente. Advogamos pela autodeterminação dos povos.

 

Não obstante, precisamos de um ecossistema para a realização de todas estas demandas. Não é um capricho ou uma moda, é um direito nosso queremos viver num planeta habitável.


Lutarmos por tal é um exercício natural.
Assim, não ataquem a geração que quer mudar o mundo. Não reproduzam a ideia de que pedir um mundo verdadeiramente habitável é pedir demais. A ligação estreita do povo com as suas lutas conforma a sua própria razão de existência.

Texto de: Jéssica Pereira

Artigo publicado em parceria com a Associação de Debates Académicos da Universidade do Minho

 

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