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Recordações de uma Feira da Ladra

Recordações…

 

Estamos todos reféns de uma pandemia que nos desgasta e que nos impede de usufruir das coisas sublimes que a vida tem para nos oferecer. Neste contexto, será oportuno recordar quão bom, e ansiosamente esperado, era o mês de outubro, altura em que se celebra a nossa festa concelhia, a feira da ladra.

 
 

Em todos nós se sentia a azáfama e a emoção de estarmos sempre atentos à preparação desta festa. As crianças vibravam com a montagem dos carrosséis e da barraca das farturas; os pais faziam planos para percorrer a feira, para comprar a roupa de inverno e para ver as famosas chegas de bois e corridas de cavalos que têm lugar durante a tarde. Desde cedo, os vendedores locais davam início aos preparativos, ciosos de que, nesses dias, nada faltasse ao consumidor e de que desejassem levar um dos seus produtos para casa.

Sentiam-se os cheiros característicos da célebre castanha assada, da broa acabada de fazer, do queijo da Serra da Cabreira e de tantos outros produtos característicos da nossa terra. Ouvia-se o barulho saudável das pessoas a conversar, dos vendedores a “puxar a brasa para a sua sardinha” e das crianças em prantos, reclamando com os pais que se recusavam a comprar mais uma ficha para os carrinhos de choque. Era também tempo de nos cruzarmos com algum amigo que já não víamos desde a primária, e com quem, a cada domingo, fazíamos parceria para ajudar o senhor Abade. Era tempo de pôr a conversa em dia e de fazer aqueles comentários constrangedores que desarmam qualquer pessoa: “Estás mais gordito…”, “Já tens filhos?”, “Que fazes da vida?”, “Ai que saudades da vida de solteiro…”.

 
 

Cada qual com as suas preferências, o homem vai até à feira do gado, bem acompanhado da sua bebida; a mulher escolhe um ambiente mais calmo e com menos moscas a incomodar; os filhos seguem os pais e tentam fazer mimos a todos os animais que observam.

Que bom era o tempo em que as máscaras só se usavam no Carnaval e não dificultavam o reconhecimento das pessoas com quem nos cruzávamos. Restam-nos as boas recordações dos tempos de outrora e a certeza de que estes tempos vão voltar à pacificidade que devolve a verdadeira essência e o sorriso a cada um.

 
Ricardo Silva

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